Era lei, era decreto, era folclore, fosse lá o que fosse, o fato é que naquele reino o Rei, a Rainha e os Príncipes nao defecavam. E ninguém podia duvidar do fenômeno, sob pena de ser enforcado. Só eles, porém. Duques, arquiduques, condes, viscondes, marqueses e barões nao gozavam de tal privilégio. Faziam cocô como toda gente. E por que o Rei e sua familía se distinguiam nesse particular? O velho almanaque explicava: a parte de alimentos deles, que normalmente se converteriam em fezes, transformava-se em sangue azul do mais fino. Sangue azul desse tipo fidalgo nenhum poderia ter. Um poeta vindo de região longíqua surgiu na praça fronteira ao Palácio Real e declarou alto e bom som que também não fazia necessidades. Sua comida virava poesia. E ofereceu-se para fazer a prova disto à vista de todos. Inteirado, o Rei ficou furibundo e ordenou que levassem à sua presença aquele plebeu atrevido. O poeta saudou cortesmente o monarca (era muito bem-educado), pediu um pedaço de pão, mastigou, engoliu e imediatamente compôs um soneto negando a existencia de sangue azul. Dizia o verso final: Azul, só mesmo o azul de Mallamé.
(drummond de andrade)
(mallamé = foi um poeta cuja obra representa um marco na evoluçao da lírica moderna)
Vejo que Drummond conseguiu muito bem no seu conto, refletir algumas pessoas que ainda hoje acham que são diferentes, que muitas vezes por estar em um patamar mais elevado, se acham no direito de viver repreendendo os outros. Só queria lembrar a essas pessoas que somos todos iguais, de carne e osso, e que no futuro todos irão para o mesmo lugar, onde ninguém escapará dos sete palmos de terra.
SÓ FIQUEI PEOCUPADO COM O COITADO DO POETA QUE DESAFIOU O REI. QUAL FINAL SERÁ QUE TEVE ESSE HOMEM?



